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- A simplicidade é doce
Posted by : Unknown
sábado, 3 de maio de 2014
Vovó começava todos os domingos abrindo a massa de um pastelão. Receita de família. Quando estava animada, preparava uma torta de maçã. Eu, pequena, chamava aquela maravilha de "apopaia". Só depois de muito tempo entendi que era "apple pie" (torta de maçã em inglês). Recebia os seis filhos, elegante em um de seus muitos "vestidos de ficar em casa". Macarronada. Franguinho ensopado. Polenta. O domingo transcorria sereno. Feliz.
Naquela época, viver em paz, no mais verdadeiro anonimato, estar quieto, sem na extraordinário para fazer era direito adquirido. Fosse hoje, vovó teria que "descolar" umas folhinhas aromáticas para decorar o pastelão. Ajeitar um pedacinho pequeno, que grande não fica bem, checar luz, conexão, tirar foto, postar. Ver quantos curtiram no Face.
Pronto, acabou o sossego da velha! Faria outro retrato dos filhos. Sorrindo. Porque família com problemas ninguém quer compartilhar. Nada de vestidinho surrado. Nem cabelo despenteado. Universo fake.
Fosse hoje, vovó talvez não tivesse aquele sorriso absolutamente pacífico de que não espera, nem por um só minuto, ser famosa. Ô trem doido esse mundo novo, sô!
Uma das questões mais tristes do mundo atual é que ninguém pode ser comum em paz. Nem cafona, nem gordo, nem feio, nem doido, nem burro. Ficar em casa, naquele fim de semana preguicento em que só se tem panela de brigadeiro e cafuné no filho pra fazer, nem pensar! Você entra no Facebook e, pronto, um amigo escalou uma montanha, outro está no fundo do mar. De-pres-são depressinha!
Você foge pra pracinha... outro estresse! Nem o bebê pode desfrutar o direito de ser comum. Todo mundo hoje acha que pariu Einstein. Com seis meses, a criança tem que fazer capoeira, expressão corporal, ter lido toda coleção do Polvo Poli no original e ser matriculada numa creche bilíngue, que a ensine a falar bo-bo-bo-book. Não se dá mais tempo de a natureza atuar e fazer o trabalho dela. Na internet, são tantos artigos sobre doenças que, se você tiver alguma tendência hipocondríaca, vai sempre achar defeito no seu filho. Simplesmente porque todos, todos nós temos, sim, algo que sai da forma. E é isso que nos faz humanos e divinos. Em vez do filho perfeito, o superfilho, que tal o filho feliz? Eu compartilho.